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Beijosssssssssssssssss !
Obrigado por adicionar-me.Zé.
Eduardo da Silva Pereira*
Esta narrativa tentará transmitir duas realidades como se acompanhadas por uma câmera, arbitrária e mecanicamente câmera não tem uma neutralidade, pois não há registro sem controle.O cenário é a cidade do Rio de Janeiro. Há alguém selecionando e combinando, montando as imagens a mostrar...
“Vá pra luta você!Vá pra luta que surgiu!”.
Filho da luta!Filho da Luta!”“.
(batida Hip Hop)
Somos homens de ação
E acordamos nas manhãs
Porque temos de acordar
E sentir dentro de nós o amargo, o não- vá...
“Vá pra luta que surgiu Labuta!”
“Vá afrontar a noite e o dia!”
O cuidado amargo do pão adquirir
Espantar a concorrência
E fingir uma alegria...
È! O quarto escuro, a cabeça baixa,
E um morcego a tapar o sol: trapaça...
E dor,exílio, melancolia...
(um Soul, talvez).
Realidades através das aparências, o social!
E atrás dos olhos,os dois buracos da caveira
E nessas lágrimas só fosfato e cal...
Mal!Tristeza dentro e fora
E quem implora por uma profissão tradicional
Reclama e busca uma saudade antiga do desejo
E ressuscita o seu clamor pra luta.
Depois de uma noite de agito, amanheceu...
Depois do relógio de ponto e um apito, aconteceu...
Aconteceu que o ponto de ônibus ou de encontro
Vermelhou com tanta força quanto um grito
E se fez a chuva...Na “via – crucis” de dois anjos...
E dor macilenta na face dos santos, ganhando paz
E bem-estar e Graça...
Ontem, dormi na Praça do Relógio e perdi a hora...
Ontem os carros atropelaram um cara de roupa baça.
Ontem, a polícia espancou dois garotos de atividade baixa...
Hoje, alguns meninos gritavam batucando numa caixa...
Ontem, na sujeira do pátio, vimos uns caras remexendo os lixos
Não eram cães, nem gatos, não eram bichos...
(quem sabe, um samba de Noel ou Adoniran)
Fosse dia ou fosse noite...Vi dois meninos correndo, Capitães da Areia e sem destino...
E Pensei em meus filhos e, na minha cara,
Escorreu um choro fino, Ave Maria!
Eu sei que vou morrer,
Na solidão da rua vou morrer
E se escutar um samba vou morrer...Escuta o eco do açoite...
E talvez muitos gritem ao microfone...
Gritem e atirem...E os tiros espantem ou façam rir...
Minha mãe reza...Pro Jesus de Praga...
E o homem pesa o preço que me paga...
E guarda o uísque no bolso...
Eu rezo a Santa Genoveva...Rezo e sinto bater meu coração...
O mesmo trabalho secreto ele faria na cozinha...
O mesmo trabalho abjeto, enquanto a chuva caía...
Sou de trabalho proscrito e o meu tempo é prescrito...
Só meu salário é restrito ao corpo e ao riso rouco...
Ontem ,eu vi o invisível ...E se fez a luz,na risível escuridão...
Ontem,dois meninos foram espancados,enquanto eu trepava no caminhão
Pra arremessar o lixo dos moradores do Leblon...Sabe, Minha Nega,vi a imagem do Cão...
Porque vi esse menino saindo da estação...E até o Pedro Pedreiro, sorrindo, abanou a mão...
Então chorei aos pés da cruz...Na Presidente Vargas, varria o chão...Na Leopoldina, o trânsito parou...A vida é curta,mas muda...
(Música de suspense)
E então seu príncipe arrastou seus pés até próximo ao latão,começou a vasculhar todas as vísceras daquela cidade – as ruas de pessoas que não se vêem ,os anúncios gritados dos magazines ,os gritos dos que oferecem empréstimos,os restos dos rostos- tristes-meninos
E outros trecos magnéticos e outra gente-utensílio...E outros tubos de vento a destruir meio-fio...Aqueles que percorrem altares de onde esperam socorro. Hoje sei que morro...Ou de dor ou despero ,Preta Véia...Hoje sei que morro ou de cansaço ou do couro que me dão esses fatos...O trapo,o prato,o fraco...E a fraquejar minhas pernas conservam a rígida volta da roda,da lâmina ,da lápide,da lâmpada...E penso que, ao menos,eu vou ter aposentadoria...Eu via e ver não queria...Era um menino triste e outro louro. Talvez tivessem família. Talvez tivessem esperança,mas morriam aos poucos...feito planta de arruda...
Hoje o velho “qual vai ser?” me aprontou uma boa...E me senti como um louco numa furada canoa...Do outro lado da rua, havia uma procissão...E a vida me arrepiou,me deu frio...O meu corpo,em breve,teria carnes moles,a vida muda...e continuaria a não ser pessoa...
(Sem trilha)
Tanto eu quanto eles, os meninos, somos cicatrizes invisíveis na barriga das cidades...Eu, a recolher os detritos, não me vêem ...Mas posso enfrentar as filas do INSS e vender o meu cansaço em troca de uns trocados, ao fim de uns trinta anos...Mas eles, os meninos, vendendo o próprio sexo,os sonhos ,a juventude,se chegarem até os trinta de vivência...
“Ah, cala-te,boca!”
“Por que hoje não, moleque? Estás achando que és Profissional Liberal, é?”
E pensei no preço que me pagam e vi que era caro o troco...O velho depravado carregava uma garrafa de vinho tinto...Na minha cabeça, uma vida em rascunho,sem tempo de passar a limpo...
A gente acha cada coisa no lixo!Tem coisas que não deviam estar lá! Acho que pra tudo tem jeito,menos pra morte! Ce não tá gravando isso não,né?”
Acho que a Camila da música é alguém que sofreu abuso sexual.A narrativa confunde as falas do narrador e da Camila!O que você acha,Minha Negra?
Close up. Algumas fotografias espalhadas pelo calçadão. O reflexo de um luminoso na poça d´água.Um cachorro amarelo,a vidraça de um prédio. O sol espelhado na vidraça.
Slow motion. O pôr-do-sol .Uma rua escura do Leblon. Um garoto parado diante da janela de um Mercedes prateado. O asfalto refletindo a luz. Botas. A perna de uma calça alaranjada. Um baque surdo. Sacos caindo na caçamba do caminhão.
Corte abrupto. Cinelândia .Estação do Metrô. A lua vista da janela do trem. Fusão de imagens do mar e da lua. Música instrumental (talvez saxofone ou piano)
Corte. O gari despindo-se de seu uniforme. A lua. Visão aérea da cidade. Uma janela. Uma colcha de retalhos.Algumas notas de cinqüenta. O nascer do Sol. Uma gaiola de passarinho vazia. Fotografias pelo chão. Fusão das fotografias com a gaiola. Música instumental. Uma revoada de borboletas azuis. O horizonte .Sobem os créditos.
“E...Corta!”
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*Eduardo da Silva Pereira (Volta Redonda- RJ, Brasil) é ator,pesquisador, redator de temas culturais e docente. Graduado em Letras (Língua Portuguesa e Literatura), integra a equipe de docentes do Colégio João XXIII / Fundação Educacional de Volta Redonda e do Colégio São Paulo (Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro). Com formação em História e Cultura afro-brasileira , coordena a Trupe Aquarela Literária Brasileira que se ocupa em pesquisar e discutir a exploração das ausências e presenças nas memórias e na expressões artístico-literárias canônicas e não canônicas. Atuou como Agente Cultural da Fundação de Cultura, esportes e Lazer de Barra Mansa- RJ de 1998 a 2006,tendo dirigido peças teatrais de criação conjunta com núcleos comunitários e o projeto de difusão cultural “Corredor Cultural”.