Educacionistas

O Dia dos Professores, o que teremos para comemorar? Plano de Carreira? Piso salarial? Valorização Profissional? Gestão Democrática? Respeito e Consideração?

Sedutor é estar na sala de aula . Valorizar o profissional que está junto com a criança no seu dia a dia é valorizar a Nação inteira e todo o seu futuro. Valorizar o profissional que está na sala de aula este é o principal motivo de nossa luta. Que os cargos e salarios da hierarquia na área da Educação não sejam tão sedutores que tirem o bom profissional da sala de aula. Que cargos e salários da hierarquia da Educação não estejam ligados às bandeiras partidárias. Educação é bandeira de todos os brasileiros.

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Refletindo sobre a Formação Docente

Deborah Rosária Barbosa


“...Nas escolas, nas ruas campos, construções
caminhando e cantando
e seguindo a canção...
Vem, vamos embora
que esperar não é saber
quem sabe faz a hora
não espera acontecer...”
(Para não dizer que
não falei das flores-
Geraldo Vandré)

No dia 15 de outubro comemora-se mais um dia dos professores. Assim, antes de qualquer coisa gostaria de desejar a todas as professoras e aos professores: PARABÉNS!

Etimologicamente o vocábulo professor foi introduzido na língua portuguesa por volta do século XV e, é derivado do latim professor, professoris, cujo sentido original relaciona-se ao termo professar, traduzido por "reconhecimento público” (Cunha, 1982, p. 637). Nos dicionários encontramos como sinônimo da palavra professor o verbo “professar” que está ligado a significados como: “...reconhecer publicamente.”, “...ensinar na qualidade de professor” ou, ainda: “...preconizar, apregoar, abraçar, por em prática, adotar...”, dentre outros significados.

Sabemos, contudo, que o ofício do professor no nosso atual contexto tem muito mais significados. No Brasil temos grandes problemas oriundos de uma concepç� �o de educação que tem em sua origem a noção de disciplinarização, manutenção da “ordem e progresso” e também como aponta Foucault (1983) a perspectiva de docilização dos corpos. Em outras palavras, numa sociedade de classes como a nossa, a educação comumente tem como principal propósito deixar as pessoas cada vez mais alienadas de que podem transformar a sua condição de vida, e para isto, em muitos casos, as escolas buscam apenas formar indivíduos para cumprir tarefas, executar trabalhos, ser bons para o sistema e manter as coisas como estão. Neste contexto específico professam-se ensinamentos coercitivos, diferentes de uma educação que promova outro tipo de aprendizado. Nesta educação perderam espaço: as artes, a filosofia, o lazer, o lúdico, o ócio, o inusitado, as flores... Ou seja, todas as dimensões estéticas que perderam espaço para o ensinamento exclusivo de conteúdos sistemáticos para formação do homem para o trabalho.

Mas como apontam vários autores, ao mesmo tempo em que a educação pode ter este propósito, por seu caráter dialético, a educação também pode, ao contrário, contribuir para o desenvolvimento humano em todos os seus aspectos (bio-psico-social-cultural) e formar pessoas com consciência e determinação para transformar e mudar esta realidade. Nesta perspectiva surge a possibilidade de uma nova profecia que leve os aprendizes a constituírem-se com autonomia, criatividade e liberdade. Esta educação abre-se para falar das flores, da música, da literatura, das artes em geral, para a brincadeira, a filosofia, o descanso, o inesperado, o inventar, criar e recriar.

Ao longo da história da educação no país, estes diferentes modos e concepções educativas passaram para o cotidiano da sala de aula e do trabalho do professor. Foram muitos os movimentos pedagógicos e formas de apreensão do que seja a educação, o ed ucador, o aprendiz, a relação ensino-aprendizagem. Cada um destes movimentos constituiu-se em perspectivas como: a pedagogia tradicional, a escolanovista, a tecnicista, a crítico social dos conteúdos, a libertadora, dentre outras. Em geral, algumas destas concepções se tornavam legislações e políticas públicas que eram implementadas no universo escolar e eram criados modos de apropriação das mesmas pelo coletivo dos personagens das instituições educativas. Porém, como salientou Gatti (1997), " ... nenhuma lei ou norma vai mudar as coisas. Quem pode mudar a situação são as pessoas nela envolvidas" (p. 58). E é este o sentido de nossa reflexão neste mês em que se comemora o dia dos professores.

De um modo geral, são muitas as dificuldades de ser professor atualmente: altas cargas horárias de trabalho, baixa remuneração, ter que estar em mais de um estabelecimento escolar, problemas diversos com alunos, pais, direção, co legas de trabalho, violência, trânsito, horas de descanso e lazer prejudicados, dentre outros. E, além disto, a exigência de que os docentes assumam papéis mais diversificados e complexos, compreendam diferentes teorias e métodos, conhecimentos que a cada dia mudam e acompanhem o ritmo frenético de informações do mundo contemporâneo. Isto tudo, em conjunto com outros fatores, pode levar ao adoecimento do professor podendo causar-lhe: hipertensão arterial, problemas respiratórios, cardiológicos, transtornos alimentares, posturais, ortopédicos, e também problemas psicológicos que tem origem em vários aspectos, dentre os quais a sua relação com o trabalho, como mostram alguns estudos (Vasques-Menezes & Codo, 1999). Por outro lado, muitos também são aqueles que se mantêm na docência com saúde, e sendo inclusive, o fato de ser professor o maior sentido de suas vidas, assim como fonte de equilíbrio e prazer.

Ao mesmo temp o em que, reconhecemos as grandes transformações e dificuldades por que têm passado no exercício da função docente, também vislumbramos que novas formas de enfrentamento e de soluções têm sido apontadas para que mude este quadro.

Defendemos aqui uma educação que valorize o humano e não a coerção, que seja libertadora e não normatizadora, que possa efetivamente contribuir para constituição de novos homens e um novo mundo. Para tanto, é importante revalorizar aspectos perdidos como a beleza, o carinho, as relações humanas, as trocas interpessoais, as vinculações afetivo-emocionais, o tocar, o sentir, o ver, o ouvir, o contato com a natureza, o lúdico, etc. Neste ínterim, a formação permanente dos educadores e espaços de discussão pode, e deve ser instrumentos possíveis para contribuir e ajudar na transformação da educação.

Assim como Paulo Freire acreditamos que:

"A melhora da qualidade da educação implica a formação permanente dos educadores. E a formação permanente se funda na prática de analisar a prática. É pensando sua prática, naturalmente com a presença de pessoal altamente qualificado, que é possível perceber embutida na prática uma teoria não percebida ainda, pouco percebida ou já percebida mas pouco assumida." (1995, p. 72).
Nos estudos contemporâneos, há uma tendência mundial em se considerar que somente a formação acadêmica, ou pré-serviço, não consegue preparar adequadamente o professor. Neidson Rodrigues (1981) é enfático neste sentido:

"Nenhum professor está preparado porque cursou a faculdade ou universidade, ou porque leu cinco, dez, cinqüenta, duzentos livros, ouviu determinado número de conferências, participou de uma determinada quantidade de cursos. Estes são instrumentos que podem auxiliar o processo de sua elevação técnica. Em cada momento, temos educadores em níveis diferenciados de preparação." (p. 67).

Mas o que estamos chamando de formação permanente? Resumidamente podemos dizer que existem:

formação acadêmica - designa a preparação recebida pelo professor em sua escolarização formal.
formação pré-serviço - indica um trabalho realizado antes do ingresso do educador na prática.
formação pós-serviço ou formação em serviço - representa um treinamento no local de trabalho do docente.
formação permanente ou contínua - é aquela que se estende além da escolarização formal, podendo abranger cursos de qualificação ou aperfeiçoamento e a formação pós-serviço ou formação em serviço. Tem como fundamento filosófico a idéia de que sempre é preciso refletir e pensar sua prática, tendo aproximação com teorias como a do professor-reflexivo, professor-pesquisador, práxis educativa e concepções dialéticas de compreensão do processo de desenvolvimento pessoal e profissional (Ver: Geraldi, Fiorentini & Pereira, 1998).
Nóvoa (1992) usa o termo formação permanente e desenvolvimento profissional docente para designar um processo de educação continuada e formação reflexiva com uma perspectiva desenvolvimental do docente como aprendiz, entendido nesta abordagem como uma pessoa em desenvolvimento. Este autor ressalta que uma boa formação de professores deve e nfocar os aspectos: pessoal e profissional.
De um modo geral, a perspectiva da formação permanente e desenvolvimento profissional docente entende que a preparação docente deve ser concebida como um continuum. Como aponta McBride (apud Nóvoa, 1992), a qualificação docente deve enfrentar o desafio de conceber a escola como um ambiente educativo, onde:
"trabalhar e formar não sejam atividades distintas. A formação deve ser encarada como um processo permanente, integrado no dia-a-dia dos professores e das escolas, e não como uma função que intervém à margem dos projetos profissionais e organizacionais" (p. 29).
Concebemos que independentemente de que abordagem teórica ou metodológica os professores ancorem seu trabalho, esta precisa ser refletida pelos mesmos, com todo o coletivo da escola, assim como o cotidiano de sua prática, suas dificuldades, modos de superação e enfrentamento. Para nós a formação permanente deve contribuir no dia-a-dia do docente em seus aspectos técnicos, profissionais e pessoais. Como não só de pão vive o homem, mas também de afeto, flores, arte e beleza, acreditamos que a formação permanente deve incidir sobre um novo modo de compreender o desenvolvimento pessoal/profissional, atingindo aspectos: físicos, cognitivos, emocionais, afetivos, relacionais, técnicos, sociais, estéticos, políticos, dentre outros.

Defendemos que a formação permanente é um processo construído coletivamente, e no qual o psicólogo escolar pode dar sua contribuição, sendo, entretanto, mais um dos personagens que podem auxiliar neste processo. Como afirma Del Prette (1999):

"a formação continuada de professores constitui uma das alternativas de atuação do psicólogo nos demais sistemas de ensino escolar. O conhecimento psicológico disponível sobre os fundamentos da educação e dos processos de ensino, sobre as relações humanas e sobre alternativas construtivas na promoção de recursos profissionais e para-profissionais, aliado ao conhecimento das questões pedagógicas, culturais e políticas que caracterizam os atuais desafios da Educação conferem, ao psicólogo uma habilitação particularmente desejável para a atuação efetiva nessa área" (p.23).

A formação permanente pode e deve se constituir num trabalho cotidiano escolar e ser um instrumento que contribua para que as os problemas enfrentados pelos professores no seu trabalho sejam ao menos minimizados. Um coletivo de profissionais, pensando e repensando suas práticas, as dificuldades, e as possíveis soluções, inventando novas formas de enfrentamento pode com certeza realizar grandes avanços no que tange a uma melhor conjuntura para uma educação melhor para todos. Além disto, é neste espaço que o professor pode buscar retomar o sentido original de professar, abraçar, tocar, sentir, se reconhecer e ser reconhecido.

A formação permanente poderá contribuir para reconstruir a docência como um espaço l� �dico, emocionante, gostoso e prazeroso. Precisamos retomar o sentido de: adoro o que eu faço! Isto me torna feliz. E para isto é preciso que no cotidiano escolar se proponha uma educação que abarque como dito anteriormente o estético, o lúdico, o prazer, a felicidade, a rega e a florada. Pensamos que urge ressignificar o espaço docente como um lugar onde também se pode ter alegria e descontração, onde haja abertura para o belo e para a fruição estética, para falar de coisas sérias e “não sérias” (mas não menos importantes), que se oportunize que pessoas em comunhão compartilhem não só as dificuldades habituais, mas também suas alegrias e felicidades cotidianas.
Reconhecemos que a formação permanente não é a panacéia que resolverá todos os problemas, e também que não atingirá a todos da mesma forma, e nem que será capaz por si só de construir novos saberes e práticas, entretanto, acreditamos que seja um caminho pa ra que no próximo ano possamos comemorar este mês dos professores com mais motivos de alegria. Vem vamos embora...

FELICIDADES para todas e todos!


"Se não houver frutos,
Valeu a beleza das flores,
Se não houver flores,
Valeu a sombra das folhas,
Se não houver folhas,
Valeu a intenção da semente."
Henfil


Este texto foi elaborado em colaboração com toda equipe do IPPEE e contém trechos do trabalho por mim desenvolvido intitulado:
BARBOSA, D. R. Formação docente: um estudo com professores do ensino fundamental e estudantes de Pedagogia. Dissertação de Mestrado, Campinas: PUCCAMP, 2001.



Deborah Rosária Barbosa é psicóloga e mestre em Psicologia Escolar (PUCCAMP). Profissional colaborador do IPPEE - e-mail: deborahbarbosa@ippee.com.br



REFERÊNCIAS

CUNHA, A. G. Dicionário etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

DEL PRETTE, Z. A. P. Psicologia, educação e LDB: novos desafios para velhas questões? In: Guzzo, R. S. L (Org.), Psicologia escolar: LDB e educação hoje. Campinas: Alínea, 1999, p. 11-31.

FOUCAULT, M. Os corpos dóceis. In: ________. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 2. ed. Petrópolis: Vozes,1983.

FREIRE, P. Política e educação: ensaios. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1995.

GATTI, B. A. Formação de professores e carreira: problemas e movimentos de renovação. Campinas: Autores Associados, 1997.

GERALDI, C. M. G.; FIORENTINI, D.; PEREIRA, E. M. A .(ORGS.). Cartografias do trabalho docente: professor(a)-pesquisador(a). Campinas: Mercado de Letras/Associação de Leitura do Brasil, 1998.

NÓVOA, A . (Coord.), Os professores e sua formação. Portugal: Dom Quixote, 1992.

RODRIGUES, N. Da mistificação da escola à escola necessária. São Paulo: Cortez,1981.

VASQUES-MENEZES, I.; CODO, W. O que é burnout? In: Codo, W. (Coord.), Educação: carinho e trabalho. Petrópolis: Vozes,1999, p. 237-254.



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Rua Cerro Corá, 988 - Alto da Lapa - São Paulo - SP
CEP 05061-100 - Fones: 3676 0325 / 9575 8772

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Olá Debora,
Li o seu texto agora,acabei de chegar de um seminário e eu vou ler novamente por que tem muita matéria para reflexão, ou melhor dizendo para uma meditação.E vai ser muito bom poder compartilhar com você esse desejo profundo de ter em nosso país uma Escola igual e de qualidade para todos os brasileiros e com a Valorização dos professores.
Abraços e obrigada por trazer esse conteúdo maravilhoso e profundo para me enriquecer.
Ana Lucia Cipriano

Deborah R. Barbosa disse:
Refletindo sobre a Formação Docente
Deborah Rosária Barbosa

“...Nas escolas, nas ruas campos, construções
caminhando e cantando
e seguindo a canção...
Vem, vamos embora
que esperar não é saber
quem sabe faz a hora
não espera acontecer...”
(Para não dizer que
não falei das flores-
Geraldo Vandré)

No dia 15 de outubro comemora-se mais um dia dos professores. Assim, antes de qualquer coisa gostaria de desejar a todas as professoras e aos professores: PARABÉNS!

Etimologicamente o vocábulo professor foi introduzido na língua portuguesa por volta do século XV e, é derivado do latim professor, professoris, cujo sentido original relaciona-se ao termo professar, traduzido por "reconhecimento público” (Cunha, 1982, p. 637). Nos dicionários encontramos como sinônimo da palavra professor o verbo “professar” que está ligado a significados como: “...reconhecer publicamente.”, “...ensinar na qualidade de professor” ou, ainda: “...preconizar, apregoar, abraçar, por em prática, adotar...”, dentre outros significados.

Sabemos, contudo, que o ofício do professor no nosso atual contexto tem muito mais significados. No Brasil temos grandes problemas oriundos de uma concepç� �o de educação que tem em sua origem a noção de disciplinarização, manutenção da “ordem e progresso” e também como aponta Foucault (1983) a perspectiva de docilização dos corpos. Em outras palavras, numa sociedade de classes como a nossa, a educação comumente tem como principal propósito deixar as pessoas cada vez mais alienadas de que podem transformar a sua condição de vida, e para isto, em muitos casos, as escolas buscam apenas formar indivíduos para cumprir tarefas, executar trabalhos, ser bons para o sistema e manter as coisas como estão. Neste contexto específico professam-se ensinamentos coercitivos, diferentes de uma educação que promova outro tipo de aprendizado. Nesta educação perderam espaço: as artes, a filosofia, o lazer, o lúdico, o ócio, o inusitado, as flores... Ou seja, todas as dimensões estéticas que perderam espaço para o ensinamento exclusivo de conteúdos sistemáticos para formação do homem para o trabalho.

Mas como apontam vários autores, ao mesmo tempo em que a educação pode ter este propósito, por seu caráter dialético, a educação também pode, ao contrário, contribuir para o desenvolvimento humano em todos os seus aspectos (bio-psico-social-cultural) e formar pessoas com consciência e determinação para transformar e mudar esta realidade. Nesta perspectiva surge a possibilidade de uma nova profecia que leve os aprendizes a constituírem-se com autonomia, criatividade e liberdade. Esta educação abre-se para falar das flores, da música, da literatura, das artes em geral, para a brincadeira, a filosofia, o descanso, o inesperado, o inventar, criar e recriar.

Ao longo da história da educação no país, estes diferentes modos e concepções educativas passaram para o cotidiano da sala de aula e do trabalho do professor. Foram muitos os movimentos pedagógicos e formas de apreensão do que seja a educação, o ed ucador, o aprendiz, a relação ensino-aprendizagem. Cada um destes movimentos constituiu-se em perspectivas como: a pedagogia tradicional, a escolanovista, a tecnicista, a crítico social dos conteúdos, a libertadora, dentre outras. Em geral, algumas destas concepções se tornavam legislações e políticas públicas que eram implementadas no universo escolar e eram criados modos de apropriação das mesmas pelo coletivo dos personagens das instituições educativas. Porém, como salientou Gatti (1997), " ... nenhuma lei ou norma vai mudar as coisas. Quem pode mudar a situação são as pessoas nela envolvidas" (p. 58). E é este o sentido de nossa reflexão neste mês em que se comemora o dia dos professores.

De um modo geral, são muitas as dificuldades de ser professor atualmente: altas cargas horárias de trabalho, baixa remuneração, ter que estar em mais de um estabelecimento escolar, problemas diversos com alunos, pais, direção, co legas de trabalho, violência, trânsito, horas de descanso e lazer prejudicados, dentre outros. E, além disto, a exigência de que os docentes assumam papéis mais diversificados e complexos, compreendam diferentes teorias e métodos, conhecimentos que a cada dia mudam e acompanhem o ritmo frenético de informações do mundo contemporâneo. Isto tudo, em conjunto com outros fatores, pode levar ao adoecimento do professor podendo causar-lhe: hipertensão arterial, problemas respiratórios, cardiológicos, transtornos alimentares, posturais, ortopédicos, e também problemas psicológicos que tem origem em vários aspectos, dentre os quais a sua relação com o trabalho, como mostram alguns estudos (Vasques-Menezes & Codo, 1999). Por outro lado, muitos também são aqueles que se mantêm na docência com saúde, e sendo inclusive, o fato de ser professor o maior sentido de suas vidas, assim como fonte de equilíbrio e prazer.

Ao mesmo temp o em que, reconhecemos as grandes transformações e dificuldades por que têm passado no exercício da função docente, também vislumbramos que novas formas de enfrentamento e de soluções têm sido apontadas para que mude este quadro.

Defendemos aqui uma educação que valorize o humano e não a coerção, que seja libertadora e não normatizadora, que possa efetivamente contribuir para constituição de novos homens e um novo mundo. Para tanto, é importante revalorizar aspectos perdidos como a beleza, o carinho, as relações humanas, as trocas interpessoais, as vinculações afetivo-emocionais, o tocar, o sentir, o ver, o ouvir, o contato com a natureza, o lúdico, etc. Neste ínterim, a formação permanente dos educadores e espaços de discussão pode, e deve ser instrumentos possíveis para contribuir e ajudar na transformação da educação.

Assim como Paulo Freire acreditamos que:

"A melhora da qualidade da educação implica a formação permanente dos educadores. E a formação permanente se funda na prática de analisar a prática. É pensando sua prática, naturalmente com a presença de pessoal altamente qualificado, que é possível perceber embutida na prática uma teoria não percebida ainda, pouco percebida ou já percebida mas pouco assumida." (1995, p. 72).
Nos estudos contemporâneos, há uma tendência mundial em se considerar que somente a formação acadêmica, ou pré-serviço, não consegue preparar adequadamente o professor. Neidson Rodrigues (1981) é enfático neste sentido:

"Nenhum professor está preparado porque cursou a faculdade ou universidade, ou porque leu cinco, dez, cinqüenta, duzentos livros, ouviu determinado número de conferências, participou de uma determinada quantidade de cursos. Estes são instrumentos que podem auxiliar o processo de sua elevação técnica. Em cada momento, temos educadores em níveis diferenciados de preparação." (p. 67).

Mas o que estamos chamando de formação permanente? Resumidamente podemos dizer que existem:

formação acadêmica - designa a preparação recebida pelo professor em sua escolarização formal.
formação pré-serviço - indica um trabalho realizado antes do ingresso do educador na prática.
formação pós-serviço ou formação em serviço - representa um treinamento no local de trabalho do docente.
formação permanente ou contínua - é aquela que se estende além da escolarização formal, podendo abranger cursos de qualificação ou aperfeiçoamento e a formação pós-serviço ou formação em serviço. Tem como fundamento filosófico a idéia de que sempre é preciso refletir e pensar sua prática, tendo aproximação com teorias como a do professor-reflexivo, professor-pesquisador, práxis educativa e concepções dialéticas de compreensão do processo de desenvolvimento pessoal e profissional (Ver: Geraldi, Fiorentini & Pereira, 1998).
Nóvoa (1992) usa o termo formação permanente e desenvolvimento profissional docente para designar um processo de educação continuada e formação reflexiva com uma perspectiva desenvolvimental do docente como aprendiz, entendido nesta abordagem como uma pessoa em desenvolvimento. Este autor ressalta que uma boa formação de professores deve e nfocar os aspectos: pessoal e profissional.
De um modo geral, a perspectiva da formação permanente e desenvolvimento profissional docente entende que a preparação docente deve ser concebida como um continuum. Como aponta McBride (apud Nóvoa, 1992), a qualificação docente deve enfrentar o desafio de conceber a escola como um ambiente educativo, onde:
"trabalhar e formar não sejam atividades distintas. A formação deve ser encarada como um processo permanente, integrado no dia-a-dia dos professores e das escolas, e não como uma função que intervém à margem dos projetos profissionais e organizacionais" (p. 29).
Concebemos que independentemente de que abordagem teórica ou metodológica os professores ancorem seu trabalho, esta precisa ser refletida pelos mesmos, com todo o coletivo da escola, assim como o cotidiano de sua prática, suas dificuldades, modos de superação e enfrentamento. Para nós a formação permanente deve contribuir no dia-a-dia do docente em seus aspectos técnicos, profissionais e pessoais. Como não só de pão vive o homem, mas também de afeto, flores, arte e beleza, acreditamos que a formação permanente deve incidir sobre um novo modo de compreender o desenvolvimento pessoal/profissional, atingindo aspectos: físicos, cognitivos, emocionais, afetivos, relacionais, técnicos, sociais, estéticos, políticos, dentre outros.

Defendemos que a formação permanente é um processo construído coletivamente, e no qual o psicólogo escolar pode dar sua contribuição, sendo, entretanto, mais um dos personagens que podem auxiliar neste processo. Como afirma Del Prette (1999):

"a formação continuada de professores constitui uma das alternativas de atuação do psicólogo nos demais sistemas de ensino escolar. O conhecimento psicológico disponível sobre os fundamentos da educação e dos processos de ensino, sobre as relações humanas e sobre alternativas construtivas na promoção de recursos profissionais e para-profissionais, aliado ao conhecimento das questões pedagógicas, culturais e políticas que caracterizam os atuais desafios da Educação conferem, ao psicólogo uma habilitação particularmente desejável para a atuação efetiva nessa área" (p.23).

A formação permanente pode e deve se constituir num trabalho cotidiano escolar e ser um instrumento que contribua para que as os problemas enfrentados pelos professores no seu trabalho sejam ao menos minimizados. Um coletivo de profissionais, pensando e repensando suas práticas, as dificuldades, e as possíveis soluções, inventando novas formas de enfrentamento pode com certeza realizar grandes avanços no que tange a uma melhor conjuntura para uma educação melhor para todos. Além disto, é neste espaço que o professor pode buscar retomar o sentido original de professar, abraçar, tocar, sentir, se reconhecer e ser reconhecido.

A formação permanente poderá contribuir para reconstruir a docência como um espaço l� �dico, emocionante, gostoso e prazeroso. Precisamos retomar o sentido de: adoro o que eu faço! Isto me torna feliz. E para isto é preciso que no cotidiano escolar se proponha uma educação que abarque como dito anteriormente o estético, o lúdico, o prazer, a felicidade, a rega e a florada. Pensamos que urge ressignificar o espaço docente como um lugar onde também se pode ter alegria e descontração, onde haja abertura para o belo e para a fruição estética, para falar de coisas sérias e “não sérias” (mas não menos importantes), que se oportunize que pessoas em comunhão compartilhem não só as dificuldades habituais, mas também suas alegrias e felicidades cotidianas.
Reconhecemos que a formação permanente não é a panacéia que resolverá todos os problemas, e também que não atingirá a todos da mesma forma, e nem que será capaz por si só de construir novos saberes e práticas, entretanto, acreditamos que seja um caminho pa ra que no próximo ano possamos comemorar este mês dos professores com mais motivos de alegria. Vem vamos embora...

FELICIDADES para todas e todos!


"Se não houver frutos,
Valeu a beleza das flores,
Se não houver flores,
Valeu a sombra das folhas,
Se não houver folhas,
Valeu a intenção da semente."
Henfil


Este texto foi elaborado em colaboração com toda equipe do IPPEE e contém trechos do trabalho por mim desenvolvido intitulado:
BARBOSA, D. R. Formação docente: um estudo com professores do ensino fundamental e estudantes de Pedagogia. Dissertação de Mestrado, Campinas: PUCCAMP, 2001.



Deborah Rosária Barbosa é psicóloga e mestre em Psicologia Escolar (PUCCAMP). Profissional colaborador do IPPEE - e-mail: deborahbarbosa@ippee.com.br



REFERÊNCIAS

CUNHA, A. G. Dicionário etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

DEL PRETTE, Z. A. P. Psicologia, educação e LDB: novos desafios para velhas questões? In: Guzzo, R. S. L (Org.), Psicologia escolar: LDB e educação hoje. Campinas: Alínea, 1999, p. 11-31.

FOUCAULT, M. Os corpos dóceis. In: ________. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 2. ed. Petrópolis: Vozes,1983.

FREIRE, P. Política e educação: ensaios. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1995.

GATTI, B. A. Formação de professores e carreira: problemas e movimentos de renovação. Campinas: Autores Associados, 1997.

GERALDI, C. M. G.; FIORENTINI, D.; PEREIRA, E. M. A .(ORGS.). Cartografias do trabalho docente: professor(a)-pesquisador(a). Campinas: Mercado de Letras/Associação de Leitura do Brasil, 1998.

NÓVOA, A . (Coord.), Os professores e sua formação. Portugal: Dom Quixote, 1992.

RODRIGUES, N. Da mistificação da escola à escola necessária. São Paulo: Cortez,1981.

VASQUES-MENEZES, I.; CODO, W. O que é burnout? In: Codo, W. (Coord.), Educação: carinho e trabalho. Petrópolis: Vozes,1999, p. 237-254.



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Com certeza vamos trocando figurinhas... Abraços, Deborah.

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